sábado, 5 de março de 2016

Resenha: Mate-me quando quiser (Anita Deak) - Luiz!

“Mate-me quando quiser” é o primeiro romance da jornalista e mineira Anita Deak. O livro é dividido em quatro partes com capítulos sem numeração ou nomeação. A escritora demonstra um domínio curioso do uso de ironia em seu texto e na criação de elementos e estratégias narrativas para engajar o leitor. Os  personagens - que no meu entendimento aparecem em número ideal para a estória - cativam o leitor ainda que, em sua maioria, não tenham nomes.

Temos o nome de três personagens durante o livro inteiro: Mário (o garçom), Soares (o matador) e Alynka (a mãe do “homem”). De início, confesso, que achei estranho essa opção da escritora, mas conforme a estória foi se desenvolvendo, criei uma nova opinião sobre o motivo disso dentro narrativa. No estilo de vida de nossa sociedade moderna e urbana, temos pouco tempo pra conhecer as pessoas que nos rodeiam ou conhecer os outros por nome, e por isso, muitas das pessoas que observamos e descrevemos no nosso dia-a-dia são apenas, o homem, a mulher, a loira, a morena, o carteiro, o cozinheiro, o porteiro, etc. A narrativa, portanto, representa o olhar do indivíduo urbano moderno sobre o outro em sociedade. Outra possibilidade tem base em um trecho do próprio livro onde discute-se um pouco sobre psicanálise. Nessas discussões percebi uma reação peculiar do personagem “homem” diante de alguns dos questionamentos feitos, e pude concluir que o narrador descreve os personagens da narrativa apenas pelas suas características como forma de privá-los de suas identidades.  Bem, não consigo pensar em uma hipótese como a definitiva, mas espero ter compreendido o tom da narrativa.
É importante ressaltar que cada personagem é construído com pelo menos uma característica marcante. Soares, o matador, só aceitava trabalhos em que ele tivesse um prazo para estudar o alvo e decidir o melhor momento para matá-lo. “A mulher” encomenda a própria morte por não ter coragem de matar a si mesma e possui grande  curiosidade pra conhecer e entender os outros como forma de distração (ao longo da narrativa descobrimos que ela é psicanalista e isso começa a fazer mais  sentido). “A loira” sonha com uma vida de riquezas e confortos não alcança. “A morena” tenta sempre ver o lado bom de tudo  mesmo em situações onde a maioria teria desistido.
A mudança gradual na personalidade  de um mesmo personagem pode ser observada  mas não acontece de forma que este se diferencie demais do seu “eu”. A mesma pessoa mostrando um outro lado de sua personalidade. Reprimir sentimentos, sensações, palavras, tudo isso isso pode fazer com que as pessoas aparentem ser alguém que não são. Essa questão é apontada, também, dentro do texto quando sugere que uma personagem  não tem dupla personalidade mas  sim  está buscando uma válvula de escape para seu "eu" reprimido. Essa representação me lembra a relação entre Gollum e Smeagol, personalidade de um mesmo personagem de “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien. Claro, a diferença entre os dois era nítida, eram duas personalidades totalmente distintas, mas no fundo era o mesmo ser. É essa a ideia transmitida pela personagem de Anita Deak.
Soares é apresentado como alguém bastante profissional e sério em seu trabalho, entretanto, há uma certa tensão em torno dele por ser quem terá que matar a mulher que encomendou a própria morte. O narrador, em determinado momento, diz “Era como se, para matá-la, Soares fosse obrigado a sair das sombras.”. Podemos entender isso como uma reflexão sobre pessoas que se consideram extremamente seguras e profissionais, mas que agem dentro de sua zona de conforto e segurança (ainda que um matador de aluguel esteja acostumado a estar fora de sua zona de conforto).
No fim do primeiro capítulo pode-se encontrar a seguinte a frase “[...] e se tal frase dá a entender o surgimento de um romance, ela diz mais sobre o leitor que a interpreta além do que está escrito.” e após acabar o livro percebo que a frase dá dicas sobre assuntos a serem tratados na obra. Tais como críticas ao ato de romantizar o cotidiano e a diferença de pontos de vista numa mesma história. Antes do encaixe da frase no parágrafo o narrador conduz os leitores mais habituados as histórias românticas à esperarem por uma situação semelhante, para então contestar essa possível conclusão e, simultaneamente, tirar o leitor de sua zona de conforto e deixá-lo instigado com a estória. O narrador prossegue dizendo o quão literal foi a sua sentença e complementa sua crítica ao romancismo com “Nem sempre a vida se resume com romances”.
“Se o narrador desse livro acreditasse em verdades, diria que uma delas é a de que a paixão emburrece.” (p 187). Aqui a escritora retoma seu questionamento sobre a visão romântica das coisas e em seguida conduz o leitor a uma visão prática da questão. A mistura do pensamento crítico e experiente de Soares com o senso comum em torno de situações românticas ou da paixão mostra para o leitor atento (expressão usada pelo narrador) que Soares não é um personagem muito diferente dos outros e por isso não deve ser idealizado. Ao mesmo tempo questiona o leitor sobre seus posicionamentos, e acaba por nos ligar mais à narrativa.
Desde o primeiro capítulo sabemos que “a mulher” sente vontade de entender e conhecer “o homem” que ela vê no restaurante e que pede a mesma comida que ela. Entretanto, o leitor sabe que não há nenhum tipo de relação entre eles. É interessante pensar como a escritora mexe com os pontos de vista das cenas, fazendo a curiosidade da personagem parecer ser uma busca por um amor vista de fora com um olhar questionável. E é a partir desse pensamento que vemos a relação com o primeiro capítulo em que há a contestação no modo de enxergar as coisas de forma romantizada. Não que essa visão não deva existir, mas ela pode servir de base inicial para desconstruções e comparações com outras obras. O jogo de pontos de vistas é algo muito importante num livro que tem investigação dentre seus temas.
O jogo de palavras fazem cenas serem reveladas ao fim de capítulos e trazem uma mistura de surpresa com comicidade que é um dos motivos de fazer esse livro muito rico. O narrador consegue inverter papéis de personagens como o de uma criança e o de um adulto com uma simples bala e a força de uma memória.
“Ao passo que a mãe sonhava ardorosamente com aquilo que não tinha, a menina sentia dor pelos dentes permanentes que começavam a nascer, roubando-lhe espaços da boca. Uma lamentava a falta, a outra, a transformação que impunha o tempo. Ambas, no entanto, estavam unidas pela dificuldade em aceitar o presente como ele é: Sem sorte e com dentes afiados.” (p 51)
Ao ler o trecho acima percebemos a ironia usada pelo narrador para descrever a cena. Ele dá a entender que ambas as personagens estão em uma situação desconfortável. Em “Uma lamentava a falta, a outra, a transformação que impunha o tempo. ” uma atribuição pensável para esse trecho se relaciona com a falta de algo que a mãe sentia pois tinha sonhos não concretizados. Entretanto, vamos ver esse trecho de forma mais ampla. A agonia da menina que tem os dentes permanentes crescendo é escrita por eles roubarem o espaço em sua boca. Ou seja, podemos alegar que a sentença inteira descreve tanto a situação da mãe, quanto a da filha. Já que ambas sofrem por não aceitarem seu presente e por lhes faltar algo. Para filha o espaço na boca, para mãe os sonhos distantes.
“E antes que pudesse se recompor para então acercar-se dela, perguntando se desejava ajuda, percebeu que ela sequer notara a sua presença.” (p 54). O narrador utiliza de uma refinação que faz percebemos alguns detalhes quando nos é apontado, como é o caso dessa marcação em que o personagem demora pra identificar que o outro não está o vendo. E sabe qual é o problema? Nenhum, essa é uma representação da modernidade em prática. As pessoas estão vivendo em um mundo que exige velocidade (seja nos meios de comunicação, de locomoção e de alimentação) delas, e acabam que não “perdem tempo” prestando a atenção nos outros. Porque as pessoas estão tão atarefadas com preocupações e coisas pra fazer que o simples fato de dar um “oi” pode ser considerado desnecessário. Assim como gravar nomes aleatórios já que é tão mais prático chamar de “o homem” ou “a mulher”.
Algumas semelhanças narrativas entre Anita Deak e Machado de Assis podem ser encontradas facilmente nessa obra. O  narrador dialoga com o leitor e chama-o para dentro do texto, como nas expressões “deve perguntar o leitor mais atento[...]”(p 187) e “[...] insistiria o leitor dado a picuinhas.”(p 188) e outras similares às que Machado de Assis usou em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Além disso, ambos os escritores fazem uso de capítulos curtos, o que acaba deixando a leitura mais dinâmica e fluida. Por consequência, pede que o escritor tenha um domínio maior da escrita pra concluir a ideia em menos espaço textual. Machado de Assis faz isso gradativamente conforme vai escrevendo romances em sua vida, sendo os seus últimos livros os de capítulos menores. Conforme ele vai amadurecendo sua escrita, o tamanho de seus capítulos vão encurtando.
O narrador também é mencionado diversas vezes como forma de quebrar o plano de visão do leitor e fazer com que ele enxergue a narrativa de outro angulo. Tente imaginar uma cena, como se você estivesse vendo por uma câmera de cinema. Agora essa cena está um pouco mais afastada e você está conseguindo ver alguém narrando ela e os atores ficando confusos com a voz ali presente. De certa forma, é isso que acontece. Porém, os confusos são os leitores não acostumados com esse estilo de escrita. A mudança de planos na narrativa é semelhante a escrita teatral de William Shakespeare, em Sonho de uma noite de verão, em que o personagem Puck (ou Bute, como foi traduzido pro Brasil) quebra esse plano de visão mexendo na interação entre personagens e cena. Os cenários finais de encenação teatral, por exemplo, apresentam essa ruptura feita por William Shakespeare.

A inversão de alguns valores conservadores e tradicionais carregados de machismo apresentados nesse livro são interessantes para [re]pensar a estrutura da sociedade brasileira. Como no seguinte trecho em que a esposa manda o marido passar uma roupa dela e ele responde dizendo que não sabe passar e “a loira” responde irritada e o questiona. Não se deixando inferiorizar por ser mulher e estar em uma posição de minoria em relação ao homem. Leia:
“- Você já passou meu vestido?
  • Mas eu não sei passar roupa…
  • E você acha que eu sabia passar alguma coisa quando me casei com você? Vai, levanta logo dessa poltrona. Passou da hora de você aprender a fazer alguma coisa útil aqui dentro.” (p 202)
O simples fato dela ser sua esposa e mulher faz com que ele pense que ela nasceu sabendo fazer as atividades de casa e está ali para lhe servir. Assim como sua mãe fazia quando era viva. Entretanto, “a loira” pensa e vê alguns costumes tradicionais de uma sociedade heteronormativa e machista de outra forma. E como está infeliz com sua vida, não perde a oportunidade para contestar o marido.
A parte mais profunda, pra mim, é a parte quatro do livro. O narrador considera “a mulher” uma invejosa, heroína, vítima, vaidosa e arrogante ao mesmo tempo, mostrando que na realidade depende do prisma que você a está olhando. Critica o próprio ato de criticar que, por sinal, é algo que tento fazer há um tempo. Pensar nas críticas do ponto de vista que elas partem e se elas são realmente válidas e verdadeiras, se escondem alguma frustração ou outro sentimento/sensação por debaixo da mesa. Como escreve o narrador “Dolorosamente, no chão de carpete, ela chegava à conclusão de que julgar era uma forma de montar na própria cabeça o pior cenário. E acreditar nele até o fim.” (p 225). Não quero dizer que não devemos ter uma visão crítica sobre o mundo, muito pelo contrário, mas temos que saber usá-la. Porque se usada com o seu olhar focado no centro pode acabar perdendo toda a grandiosidade de visões que estão ao redor. E, caro leitor, você não vai querer perder isso. A pessoa que vê as coisas com base exclusivamente em seu modo de enxergar o mundo pode, com o tempo, perder laços, sensações e experiências com pessoas que sabem que estão sendo julgadas a cada gesto.
De um lado mais emotivo digo que a vida pode ser triste. Mesmo sem saber, “a mulher” mudou o seu destino pelas entrelinhas. Assim como o narrador conta que as reticências podem mudar o significado de algo pois o leitor pode interpretar coisas não ditas. Soares entende algo dito que, de certa forma, se concretiza no futuro, não da forma interpretada por ele, mas sim, com motivações semelhantes. Como as peças de um lego. Quando montadas continuam sendo as mesmas, mas não estão dispostas da mesma forma. O matador viu um triangulo amoroso no simples encontro e desencontro, “o homem” viu a normalidade e a incerteza, “a mulher” viu a vida e a morte, “a morena” o fim do otimismo e “a loira” viu o dinheiro e o desespero. Em momentos eu chego a concordar com os pensamentos da “mulher” sobre a vida, porém, percebo que ela está dentro de sua cabeça e não mais enxergando nada. Está aterrorizada com o que acontece a sua volta. A ironia do último capítulo é tão bem usada que pode passar por despercebida e te convencer a fazer qualquer coisa. Anita Deak, muito obrigado por escrever, publicar e mandar pra gente um exemplar do seu primeiro romance. Eu, sinceramente, amei ele.




Book trailler sobre o livro: https://www.youtube.com/watch?v=pFQf7ax0BHc

Sugestão de reenha: https://www.youtube.com/watch?v=FYKFzNjncgs

Referências citadas:
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Ed Especial - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Prefácio de Hélio Guimarães; notas de Marta de Senna e Marcelo Diego. 1ª ed - São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014.
SHAKESPEARE, William. Sonho de uma noite de verão. Tradução de Beatriz Viégas-Faria - Porto Alegre: L&PM, 2001.
TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos Anéis. 2ª ed - São Paulo: Martins Fontes, 2000.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Resenha: Dom Casmurro - Machado de Assis (Luiz)!

Obs: As notas de rodapé foram colocadas após a resenha e antes das referências.

      O livro Dom Casmurro é constituído de 148 capítulos e uma narração composta por um personagem complexo. Tão complexo que apenas seu ponto de vista é narrado através de três pessoas diferentes nomeadas conforme a sua idade. Uma hora intitula-se Bentinho, outra Bento, e, por fim, Dom Casmurro. O primeiro é uma criança inocente que vê Capitu apenas como uma grande amiga. Já Bento percebe que gosta mais da jovem do que como amigo, mas tem ciúmes de amigo por ela. Nada muito “sério” (piadas à parte). Com Dom Casmurro é diferente, após a tragédia do capítulo CXXI Bento se torna amargo e perde o juízo da realidade. Começa a ficar neurótico com atos da mulher e chega a ponto de quase matar o próprio filho. Ele, Casmurro, é responsável por contar a história de uma suposta traição desenvolvida por Capitu e Escobar. Entretanto, o que faz o leitor acreditar nessas desconfianças se o próprio narrador se diz com memórias falhas e está em pleno delírio (Quincas Borba) ao escrever estes relatos?
     Dom Casmurro nos apresenta cada personagem com um capítulo exclusivo ou uma grande parte deste. Somente no fim do romance é que se pode perceber o quão influente e profunda a narrativa com esses personagens se torna. Não pretendo me alongar muito na descrição de todos, somente naqueles que regem a trama principal. O laço que você, caro leitor, pode criar com cada um deles é surpreendentemente imperceptível e … doloroso. A começar por D. Glória, mãe de Bentinho. Uma mulher católica que no nascimento do filho faz uma promessa de que quando crescesse se tornaria padre. Aparenta ser uma mulher decidida e que não incomodaria muito os homens da época pela sua rebeldia, contudo, desde o início do enredo ela cria o seu filho sozinha1 já que o marido havia falecido.


        Citando o agregado, porque não falar do homem que ama usar superlativos em sua vida. José Dias, homem que acompanha a família até quase o desfecho da história e que tenta ajudar Bentinho de algumas formas durante a sua vida. Machado de Assis construiu esse personagem de tal modo que quando se está envolvido em uma cena e José Dias começa a falar, colocando um superlativo na sentença, as chances do leitor se animar são bem prováveis. Com o passar das páginas a história fica cada vez mais melancólica que a tensão de algumas cenas só se é quebrada por esse personagem singular. Até mesmo em momento de tristeza para o leitor ele utiliza suas palavras amadas. Tais como a sua última: Lindíssimo. Digo que ele é o tipo de pessoa que você convida a entrar em casa, serve um café e não quer deixar de conversar tão cedo. Porque sabe que José Dias vai lhe dar conselhos úteis ou aliviar a tensão do clima, na pior das hipóteses vai lhe falar um superlativo majestosíssimo.
    Com olhos de ressaca, Capitolina (Capitu) se mostra uma mulher empoderada e decidida. Ela aparenta mirar um caminho e lutar com o máximo de estratégias que conseguir até alcançá-lo. No caso, seu objetivo seria conseguir independência econômica e sem muito esforço. Ou seja, precisava de um marido rico para lhe garantir as duas coisas e depois poderia viajar e viver o quanto quisesse e sem preocupar com os outros e as despesas. É uma mulher segura, isso é mostrado em alguns trechos em que quem vive a cena é Bento, como àquelas em que ela engana D. Glória dizendo que Bento seria um bom padre no futuro. Isso para esconder que os dois, supostamente, se amavam. Mal sabiam eles que estava tudo planejado na cabeça dela para ter um futuro seguro e estável. Não que ela não amasse Bento, mas as vezes a máscara estratégica subia-lhe a cabeça.
    De que bastam estratégias para segurar Bento se existia um terceiro. Escobar. O título do capítulo CXIII, Embargos de um terceiro, poderia ser uma metáfora para dizer que havia um terceiro na relação entre Bento e Capitolina. No caso, o terceiro elemento seria Escobar. Um homem que Bento conheceu no seminário, que abraçou, que acariciou os braços, que descreveu os olhos, que supostamente … amou. Ao apalpar os braços de Escobar, Bento sente algo diferente que diz ser inveja, mas será mesmo?
Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões, disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa.
Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Não só os apalpei com essa idéia, mas ainda senti outra coisa; achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar. (ASSIS, Machado de. Dom Casmurro; - [Ed. especial]. Capítulo CXVIII; A mão de Sancha; P 162)
     Continuando essa linha de pensamento, vamos a Dom Casmurro. Ele é o responsável por descrever a história do começo ao fim, mostrando ao leitor as grandes diferenças na sua personalidade e algumas semelhanças que os anos escondem. Ou não. A sua fixação pelo ciúme com Capitu cresce aritmeticamente até o momento que seu melhor amigo, Escobar, morre. Após essa catástrofe – como ele escreve no livro –, o crescimento transforma-se automaticamente em P.G. (progressão geométrica)2 essa loucura. Como confiar em um escritor que deixa indícios na narrativa que não tem palavra. Ele próprio escreve “É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.” (ASSIS, Machado de. Dom Casmurro; - [Ed. especial]. Capítulo LIX; Convivas de boa memória; P 91). Uma pessoa que se faz de promessas não cumpridas pode realmente contar uma parte da história de sua vida com total fieldade? Ou gerar a dúvida da famosa suposta traição que poderia ser uma máscara para reprimir uma paixão por outra pessoa. Por um homem. No trecho a seguir ele escreve que desde pequeno não era um homem de palavra.
A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao Céu os seus favores, mediante orações que diria, se eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos números vinte, trinta, cinqüenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O Céu fazia-me o favor, eu adiava a paga. Afinal perdi-me nas contas. (ASSIS, Machado de. Dom Casmurro; - [Ed. especial]. Capítulo XX; Mil padre-nossos e mil ave-marias; P 37)


      Ele via todos, e ao mesmo tempo, não via a si próprio. Era uma confusão pois pensava que estava normal. Foi quando se deu conta que os outros eram muito parecidos com a aparência dele naquele momento, porém não eram a sua essência. O jovem tira a máscara do momento que engana a sua percepção do mundo e volta a ver a realidade que um dia estava clara e desmascarada perante seus olhos. Talvez essa realidade poderia ter sido eterna se ela não se deixasse enganar pelas máscaras e pelos estranhos pontos de vista de uma história confusa. Se as máscaras são os padrões, o homem ver todos iguais a ele e todos se veem iguais. Cada um com a sua perspectiva de mundo. Porque nada é mais embaraçoso para uma máscara padronizada do que um conjunto de máscaras iguais a ela. Como se a vida fosse uma interpretação dos romances escritos e não o contrário. A diferença se dá no término do horário e ao mesmo tempo a semelhança. Pois se o término for uma conversa, a máscara padronizada continua após seu fim. Entretanto, se o término for a morte, após ela a máscara é caída e restará apenas uma dicotomia opressora. O morto será bom ... ou ... mal3. Com isso explico a neura de Dom Casmurro com a suposta traição. Ele constrói ao leitor uma visão de Capitu que mostra ela como um morto mal, em que ela convence Bentinho e Bento de fazer coisas que ele não faria em situações normais. Ela o faz usar uma máscara que acaba sendo absorvida já que ele é um tolo apaixonado. A obra acaba por ter seu assunto centrado no jogo de máscaras. Sobre adotar o rosto (o visual, o comportamento, as ideias, a aparência, os modelos, os padrões, os valores) que a sociedade impõe. Sobre vestir a máscara que é socialmente aceita, que é aplaudida e elogiada e privilegiada, mas que, simultaneamente, esconde o verdadeiro rosto de cada um. Exemplificando, retorno ao primeiro parágrafo desta resenha em que disse que há um personagem dividido em três pessoas (Bentinho, Bento e Dom Casmurro). Bentinho seria o ser livre de máscaras já que é a lembrança vívida de sua infância. Segundo Eduardo Lourenço (2011), é no sentimento de saudade relacionado à memória que guardamos nossas melhores lembranças. Principalmente as de quando éramos crianças, pois o que vemos são flashes de alguns momentos da vida e não o cotidiano. Logo, a distorção dos fatos é algo esperado.
     Defendo a teoria de que a relação de Dom Casmurro era composta de um triângulo amoroso entre ele, Capitu e Escobar. Mas não como ele aparenta abordar (ele sendo o traído), e sim o casamento dele com Capitu e o romance desde o seminário com Escobar. Se o leitor voltar a ler com cuidado perceberá que após a morte de seu melhor amigo, Bentinho fica mais amargo, frio e louco. A frieza com que ele fala de algo seja o que for e com quem for é uma forma de se distanciar de algo que o machuca, uma forma de se distanciar desse sofrimento da perda do amigo/antigo namorado. De se colocar, linguisticamente (e portanto, psicologicamente) longe e desconectado desse sofrimento específico. Assim, não sentido e tornando isso um mecanismo de defesa quando se não se quer permitir sofrer ou ser afetado por algo.
     Por fim, respondendo a clássica pergunta feita pelos professores de literatura do Ensino Médio referente à traição, particularmente, entendo a obra como um jogo complexo de máscaras que possibilita diversas teorias diferentes. Entretanto, após algumas evidências prefiro defender a presença de um teor de loucura que faz com que a crença no narrador não seja fácil. A mesma loucura que atacou Quincas Borba (humano) e Rubião4 acaba por atacar Dom Casmurro. Contudo, o motivo é outro. Aqui, ele aparenta ser a perda de seu grande e estimado amigo.
Notas:
1. Sozinha não é a palavra que melhor define a situação dela pois tinha pessoas que ajudavam na criação, como José Dias. A palavra está sendo utilizada mais no sentido de não ter o apoio moral/social do marido ao seu lado.
2. Progressão Aritmética seria quando algo cresce a partir da soma, de um em um. Logo, é um crescimento lento e gradual. Já na Progressão Geométrica o crescimento é a partir da multiplicação, ou seja, 2; 4; 8; 16 … Assim, após a morte de Escobar a cabeça de Dom Casmurro perde-se a cada capítulo com mais frequência e mais força chegando a loucura que é a narração deste livro.
3. Referência ao romance de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás cubas, em que o protagonista conta a sua vida após a sua morte. Teoricamente sem ter medo de falar algo indevido, já que a vida é algo tão vago para ele no momento.
4. Referências aos romances Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba escritos por Machado de Assis em tempos diferentes mas que alguns colegas defendem como uma trilogia, considerando Dom Casmurro o terceiro volume

Referências Bibliográficas
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro; - [Ed. especial]. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.

ASSIS, Machado de. Obra Completa, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

BIBLIOTECA DIGITAL e BANCO DE DADOS DE HISTÓRIA LITERÁRIA – NUPILL . http://www.literaturabrasileira.ufsc.br / HTTP://www.machadodeassis.ufsc.br.

LOURENÇO, Eduardo. O tempo português. In.: _____. Portugal como destino seguido de Mitologia da Saudade. 4.ed. Lisboa: Gravita, 2011, p. 87-94.
LOURENÇO, Eduardo. Romantismo, Camões e a saudade. In.: _____. Portugal como destino seguido de Mitologia da Saudade. 4.ed. Lisboa: Gravita, 2011, p. 143-154.